Jornalismo cidadão
A Internet expande-se de forma vertiginosa a todos aqueles que simplesmente querem nela participar. A Internet é o único meio de comunicação que permite a qualquer pessoa expôr ideias, trabalhos, dar o seu contributo da forma que achar melhor. E por isso, é o meio que concerne uma multivariedade de informação, de modos de transmitir essa informação, e varia também na qualidade dessa informação.
Há quem considere que os meios de comunicação tradicionais estão a ter uma linha de qualidade de conteúdos decrescente, enquanto que a Internet pode vir a ser O meio capaz de fazer frente a essa linha decrescente. Há quem veja a Internet como O meio em que devemos apostar para transmitir informação de qualidade, para melhorar o jornalismo cada vez mais, para, em vez de se tornar um inimigo dos media tradicionais, incitar neles a vontade de reconsiderar o tipo de jornalismo que se faz, tendo em conta o grande adversário que, à letra, os mete a todos no bolso. Sim, porque através da Internet, podemos ter acesso a todos os outros meios de comunicação.
Também há quem veja a Internet como um meio de informação misturada e sem qualidade, tendo em conta que qualquer pessoa leiga em determinado assunto, pode vir a expôr a sua “tese” sobre isso, de um modo muito credível e então induza os leitores em erro. Mas isso é talvez o maior senão da Internet, o maior “espinho” que ela pode ter, e a solução para isso é, não tanto desistir de usar a Internet para recolher informação, mas desconfiar e ter uma atitude crítica em relação a ela, procurando confirmar sempre a informação que dela retiramos.
Uma vez que a Internet dá essa oportunidade aos leitores, de se tornarem,sem qualquer dificuldade, informadores daquilo que pensam ou de dados reais sobre qualquer assunto, a questão é saber se eles podem ou não ser considerados cidadãos jornalistas por fazerem da Internet o seu meio de transmitir informação como verdadeiros jornalistas. Existem opiniões diversas sobre o este assunto: há quem veja o jornalismo cidadão de forma positiva porque complementa a acção dos jornalistas e por vezes, ultrapassa-a na qualidade; há quem veja este tipo de jornalismo de forma negativa, tendo em conta que o simples cidadão não pode dizer-se jornalista só porque transmite informação aos outros, sem ter tido educação para tal e o faz de qualquer forma, isso seria subestimar o trabalho de um verdadeiro jornalista que estudou para o ser; há ainda quem pense que este não é o nome que deve ser dado a quem faz algo parecido com jornalismo através das informações que consegue e depois expõe, ou seja, louva-se a atitude e analisa-se o tipo de acção tendo em conta se é ou não de boa qualidade, melhor ou pior do que acção de um jornalista profissional, mas não se lhe pode chamar de “jornalismo” propriamente dito-caso contrário todo e qualquer cidadão que se ache capaz de transmitir notícias e até ache que o faz bem, autoconsiderar-se-ia jornalista.
Assim, comecemos por analisar a opinião de alguém que vê o jornalismo cidadão como algo positivo. Dan Gillmor, um conhecido colunista do San Jose Mercury News e também bloguista, expõe a sua ideia sobre o assunto no livro We, the media. Gillmor acredita na Internet como um meio de comunicação novo e muito rico, que nos pode vir a dar muito mais do que qualquer outro media. Para Dan Gillmor, o jornalismo dos media tradicionais está cheio de vícios, estagnado e já não consegue renascer para a nova sociedade, mais moderna e que precisa de jornalismo sério e bem feito. Além disso, a relação do público com os media antigos é de comunicação unilateral, isto é, os meios de comunicação fazem algo a que Gillmor apelida de “palestras”, injectando informação para uma “massa” passiva que não reage, não critica, não questiona, não procura, não contesta. Com a Internet, essa forma de jornalismo dos media tradicionais não resulta muito, porque a sociedade tem um acesso mais rápido e fácil a mais informação, qualquer pessoa pode mostrar o que pensa, dar opinião, seleccionar informação mais facilmente, aceder a um número indefinido de páginas e sites. Outros meios de comunicação nunca teriam controle sobre isso. Para esta situação, haveria duas atitudes possíveis a tomar de parte deles: tentar lutar contra o “novo rival”, a Internet, ou aliar-se a ela, na perspectiva de procurar usufruir dela para não perder “clientes”, mas ao contrário, angariar mais.
Dan Gillmor vê nos blogs a forma mais pertinente de qualquer pessoa, independentemente de todas as suas características, aceder ao mundo online. Sem estar na posse de nenhum meio antigo de produção, qualquer um pode criar um blog em minutos e utilizá-lo para, como hoje se diz frequentemente, “fazer jornalismo”, expressão que irrita muito os profissionais do ramo, porque inclui numa área que até então só eles detinham, qualquer cidadão capaz de informar a partir do seu blog. Por isso, mesmo quando o simples cidadão informa com qualidade e procura fazer do seu blog uma fonte fidedigna e séria, os jornalistas profissionais tentam a todo o custo desprestigiar esse trabalho, procurando através dessa atitude, valorizar o seu trabalho.
Ao contrário, Gillmor humildemente valoriza esse trabalho do cidadão, mesmo sendo profissional da mídia: “Parto do pressuposto que meus leitores sabem mais do que eu: eles são em maior número – eu sou um só”. Para Gillmor, o jornalismo feito por mais pessoas, mais opiniões, mais cabeças a pensar e a discutir, pode vir a ser muito melhor do que o jornalismo dito profissional. Se pensarmos no 11 de Setembro, no Tsunami, ou nos atentados em Londres, chegámos à conclusão que, enquanto os media tradicionais não actualizavam as informações, já circulavam pela Internet vídeos amadores, fotos, áudios, novas informações sobre os acontecimentos.
É por isso que Dan Gillmor vê com bons olhos e de forma positiva o jornalismo cidadão, achando que os profissionais devem tirar partido do que encontram a esse nível, e a partir daí, não tentar desvalorizar esse trabalho, mas procurar melhorar o seu próprio trabalho, vendo no facto de haver “amadores” com tanta ou mais qualidade do que eles na transmissão de informação, a obrigação de ser melhor. (1)
Outro apoiante do jornalismo cidadão é Jay Rosen, webloguer e autor do livro What are journalists for?, onde fala sobre o aparecimento desta “nova forma de jornalismo”. Rosen vê a blogosfera de uma forma muito positiva, olhando os bloguistas, escritores de notícias, como elementos da mesma familia de um jornalista a sério, quando afirma, no seu blog: “Journalism is a part of that struggle, the simplest act of which is recording the events of the day. So a journal writer has origins in common with a journal-ist. They are members of the same communication family. And this is one reason that weblogs, which the press calls “online journals,” are an event within journalism—the practice of it, as well as our ideas about it.” (2)
Ainda cita James W. Carey considerando que o jornalismo é o nosso diário, o nosso diário colectivo, que retrata a vida comum.
«“Journalism,” James W. Carey tells us, “takes its name from the French word for day. It is our day book, our collective diary, which records our common life.” To record the events of the day is equally the aim of the newsroom and the diary writer” » (2)
Jay Rosen vê os blogs como uma forma de trabalho jornalístico, o que nos dá a entender que não condena o simples cidadão que se acha capaz de fazer trabalho jornalístico, sem formação profissional, através do seu blog, podendo vir a ser algo bastante interessante, tendo em conta a corrente de informação e exposição de questões que daí advém. Isto porque Rosen acha muito positiva e necessária a interacção entre bloguistas : “A weblog can “work” journalistically—it can be sustainable, enjoyable, meaningful, valuable, worth doing, and worth it to other people —if it reaches 50 or 100 souls who like it, use it, and communicate through it. Whereas in journalism the traditional way, such a small response would be seen as a failure, in journalism the weblog way the intensity of a small response can spell success. A weblog is like a column in a newspaper or magazine, sort of, but whereas a column written by twelve people makes little sense and wouldn’t work, a weblog written by twelve people makes perfect sense and does work. In journalism prior to the weblog, the journalist had an editor and the editor represented the reader. In journalism after the weblog, the journalists has (writerly) readers, and the readers represent an editor. In journalism classically understood, information flows from the press to the public. In the weblog world as it is coming to be understood, information flows from the public to the press. Journalism traditionally assumes that democracy is what we have, information is what we seek. Whereas in the weblog world, information is what we have—it’s all around us—and democracy is what we seek.” (2)
« (…)” Community conversation feeds professional journalism. Journalism feeds conversation.” And around, and around. I think there is something to that idea.How well it works is for people in Bluffton to address. I like that Bluffton Today tried to go Lessig on the news industry. It ditched the read only platform and re-built on read/write. Yelvington said at the launch: "Everyone gets a blog. Not just staffers, but everyone in the community. LeMonde (France) and the Mail and Guardian (South Africa) are doing this, too." Giving everyone a blog may be an obvious idea. But it's a different track. "Everyone gets a photo gallery. Everyone can contribute events to a shared public community calendar...." The site was built on Drupal technology. It had free classifieds. It was different. "It isn't tired, boring, traditional journalism. It isn't the straight and narrow of blogs, either. It's important to look at both sides..." I agree with that, Stick. My new adventure, NewAssignment.Net, is a hybrid site for that reason. (Pros and amateurs collaborate on reporting projects.) In January of 2005 I wrote Bloggers vs. Journalists is Over for the same reason.” (3)
Rosen acredita na união entre os dois lados da comunicação social: jornalismo tradicional e o “novo”, se é que lhe podemos chamar assim, tendo em conta a nova vertente tecnológica. A luta entre jornalistas e bloguistas acabou, é o que ele diz, porque devem complementar-se e tirar partido uns dos outros, já que a conversação e o jornalismo profissional estão interligados.
J.D. Lasica é escritor e bloguista, e também expôe as suas ideias sobre o jornalismo cidadão, a mídia e tudo o que os rodeia. “Citizen journalism is not the future, it's the present.”- frase de Michael Tippett, founder of NowPublic.com., citada por Lasica. O que sera que Lasica vê de positivo nesta nova forma de jornalismo, que ele considera já tão presente? O escritor dá o exemplo do 11 de Setembro ou dos atentados em Londres, em que vários cidadãos deram o seu contributo com imagens retiradas com os telemóveis, vídeos, etc. O que mudou desde então? Para Lasica, a diferença hoje é que esse contributo é usado pela mídia, como contributo noticioso, e muito importante para o jornalismo, que não consegue estar em todo a hora, a todo o momento. Claro que se trata, como diz Lasica, não de ser um “profissional”, mas de estar no momento certo à hora certa, para captar acontecimentos inesperados. « Like Yelvington, Tippett believes that citizens don't need to learn traditional journalistic practices as they pick up the mantle of multimedia reporting. “Often, it's just about being an accidental bystander, being in the right place at the right time. The truth reveals itself as you record it as an eyewitness.” ».
A grande diferença é o facto dos cidadãos usarem hoje o que descobrem, o que captam, para fazerem eles próprios a notícia. “We're trying to make people come out of their gates and become players. We want a participative culture to evolve.” – Lasica citando Steve Yelvington, analista do Morris Digital Works. Lasica acha que não se trata tanto de incitar o cidadão a fazer “jornalismo” mas de o incitar a exprimir-se de forma mais active perante o que se passa. «Instead, the Bluffton Today site gave people free blogs and the ability to post their pictures to galleries. While other citizen journalism sites like the Bakersfield Californian's Northwest Voice and the Denver Post's YourHub try to coax citizens into producing "something that looks like journalism," Yelvington says, Morris's approach here has been "more conversational and less bound by assumptions about what the end result should be." As a result, it's less about journalism and more about empowering community members to express themselves. »
Lasica considera esse envolvimento do cidadão no mundo jornalístico de forma participativa algo fascinante e menos formal do que as ditas notícias, como é visível nos blogs criados: «Rather than seeing the traditional formulaic approach of news stories or news releases, readers are seeing writings by people like the local high school principal quickly evolve into "that comfortable, informal, conversational style you see in blogs." »
"The big news organizations always say, we have journalism school grads and Pulitzer Prize winners and people trained in the craft. Fair enough, but you have two people on the story, and we already may have 20 or 50. What happens when we have 2,000 people covering that story? There will come a point where they can't compete,", palavras de Tippett, citado por Lasica.
Mas há algo que o escritor considera ainda mais relevante, ainda mais importante no jornalista cidadão. Ele transmite a notícia, não com a impessoalidade do jornalista professional, que testemunha ou relata, mas não vive, mas com a emoção de quem passou pelas coisas, de quem viu, de quem sentiu, de quem esteve lá. È algo bem diferente, muito mais realista - « Another strength of citizens' news is the removal of the journalist as an impersonal, detached observer. “This is the real reality news,” Tippett says. “People are uploading videos and publishing blog entries, saying, 'Let me tell you about my husband who just died.' It's a very powerful thing to have that emotional depth and first-hand experience, rather than the formulaic, distancing approach of the mainstream media.” (…) Eventually, people in hundreds and thousands of communities will be reporting about themselves. »
Em jeito de conclusão, o escritor afirma seguramente que o mundo das notícias não é mais uma área privada e inacessível. O jornalismo cidadão será, não a excepção, mas a regra, haverá cada vez mais cidadãos “invadindo” o mundo jornalístico, e quem sabe, de forma muito positiva -“The news isn't a private club anymore. Soon, citizen journalism will be not the exception but the rule. Most news will come directly to readers and into newsrooms from people on the scene.” (4)
Ao contrário de todas estas perspectivas, há quem veja o jornalismo cidadão pelo lado negativo, como um “insulto” ao profissionalismo dos jornalistas. Paul Scrivens, analista informático, é um deles. Paul não vê os blogs como um novo tipo de jornalismo, reconhece apenas que se têm tornado uma forma comum de qualquer pessoa facilmente expôr as suas ideias e opiniões. Mas o problema é fazerem-no, muitas vezes, sem procurarem saber se o que dizem está de acordo com a realidade e por isso, os blogs não podem ser tidos como fontes seguras de informação. Portanto, para Paul todo o conteúdo dos blogs não pode ser olhado como verdadeiro jornalismo.(5)
Dan Rosenbaum, bloguista, trabalhou no United Press International, e considera também que os blogs não são sinónimo de jornalismo. Rosenbaum acha que não é por ter fácil acesso à Internet e rapidamente conseguir criar algo que permita expôr às pessoas tudo o que vai na mente de cada um, que toda a gente pode ser jornalista. Não por ter a ferramenta que qualquer pessoa pode exercer a profissão, como não é por um músico ter acesso a todos os instrumentos que se pode dizer músico. Não é por ter um piano em casa que sou pianista. É preciso saber tocar. Para o jornalismo é a mesma coisa. Não basta o acesso ao blog. Não basta saber criá-lo, não basta até ter um gravador em casa, o lápis e o papel, ou o teclado do computador. “Just as the equipment doesn’t make me a musician or a programmer, blogging doesn’t mean you’re a journalist”. Para um blog se tornar em blog jornalístico, teria de ser escrito por um jornalista, ou teria de ser muito bem confeccionado pelo cidadão comum, bem informado, capaz de certificar a verdade, para dar aos seus leitores informação de qualidade.
Mesmo assim, Rosenbaum não desmotiva os cidadãos a criarem blogs, mas alerta-os para a consciência de que não estão a ser jornalistas só por o fazerem. “You want to use weblogs to do journalism? Go for it. Pick a story. Advance it every day, every hour. The infrastructure of blogspace will help you get the word out. If you've picked the right story and you're good enough at advancing it, your work will bubble up. And if you're the first blogger to get cited on A1 of the NYTimes, glory be. Just remember: it's not as easy as it looks.” (6)
No meio de tudo isto, é por vezes difícil estar segura de uma opinião segura. Mas eu penso que, tal como diz Rosenbaum, o facto de hoje em dia todo o cidadão ter acesso às mais variadas formas de expôr através da Internet, tudo o que pensam, as suas vivências, os seus trabalhos, (tal como nós, estudantes de jornalismo, fazemos), seja o que for, mesmo que procurem postar notícias, ou opiniões sobre o que acontece no mundo, isso não lhes dá título de Jornalista. Caso contrário, andaríamos nós a tirar um curso desnecessáriamente e então utilizaríamos o dinheiro das propinas nos meios que nos permitem fazer jornalismo e somente nisso, e poderíamos autoconsiderarnos jornalistas. Não, não penso que seja dessa forma, até porque, sem a formação que temos no curso, eu acho que não é possível ser-se completamente profissional, por muito que que até se escreva bem, ou se tenha uma boa cultura. Jornalismo, só porque não foi dos primeiros cursos a nascer, só porque começaram por ser cidadãos comuns a exercer a profissão, não significa que hoje não esteja modificado, melhorado, aperfeiçoado, exigente, ou que não necessite de pessoas deviadamente competentes. Exactamente como não é um cidadão comum que passa atestados médicos.
Eu penso que o cidadão deve sim usufruir das oportunidades que a tecnologia dá e expôr tudo o que pensa. Se quer tentar aperfeiçoar o seu trabalho, então talvez deva informar-se sobre o trabalho jornalístico e tudo o que ele exige, e é de valorizar sempre um bom trabalho mesmo que não pertença ao jornalista. Mas isso não significa que seja jornalismo no sentido profissional da palavra. Talvez o problema seja mesmo o nome que dão a essa nova forma dos cidadãos demonstrarem o que pensam através da Internet – jornalismo cidadão.
1 - Dan Gillmor
http://www.editpresenca.pt/imprensa_detalhe.asp?id=205
http://www.dangillmor.com/
2 - Jay Rosen http://journalism.nyu.edu/pubzone/weblogs/pressthink/2004/03/08/weblog_demos.html
3 - Jay Rosen
http://interviews.slashdot.org/article.pl?sid=06/10/03/1427254
4 - D.J. Lasica
http://www.ojr.org/ojr/stories/090805lasica/
5 -Paul Scrivens
http://blog.squarespace.com/blog/2005/1/13/blogs-vs-journalism.html
6 - Dan Rosenbaum
http://www.danrosenbaum.com/writing/journoblogs.html
Há quem considere que os meios de comunicação tradicionais estão a ter uma linha de qualidade de conteúdos decrescente, enquanto que a Internet pode vir a ser O meio capaz de fazer frente a essa linha decrescente. Há quem veja a Internet como O meio em que devemos apostar para transmitir informação de qualidade, para melhorar o jornalismo cada vez mais, para, em vez de se tornar um inimigo dos media tradicionais, incitar neles a vontade de reconsiderar o tipo de jornalismo que se faz, tendo em conta o grande adversário que, à letra, os mete a todos no bolso. Sim, porque através da Internet, podemos ter acesso a todos os outros meios de comunicação.
Também há quem veja a Internet como um meio de informação misturada e sem qualidade, tendo em conta que qualquer pessoa leiga em determinado assunto, pode vir a expôr a sua “tese” sobre isso, de um modo muito credível e então induza os leitores em erro. Mas isso é talvez o maior senão da Internet, o maior “espinho” que ela pode ter, e a solução para isso é, não tanto desistir de usar a Internet para recolher informação, mas desconfiar e ter uma atitude crítica em relação a ela, procurando confirmar sempre a informação que dela retiramos.
Uma vez que a Internet dá essa oportunidade aos leitores, de se tornarem,sem qualquer dificuldade, informadores daquilo que pensam ou de dados reais sobre qualquer assunto, a questão é saber se eles podem ou não ser considerados cidadãos jornalistas por fazerem da Internet o seu meio de transmitir informação como verdadeiros jornalistas. Existem opiniões diversas sobre o este assunto: há quem veja o jornalismo cidadão de forma positiva porque complementa a acção dos jornalistas e por vezes, ultrapassa-a na qualidade; há quem veja este tipo de jornalismo de forma negativa, tendo em conta que o simples cidadão não pode dizer-se jornalista só porque transmite informação aos outros, sem ter tido educação para tal e o faz de qualquer forma, isso seria subestimar o trabalho de um verdadeiro jornalista que estudou para o ser; há ainda quem pense que este não é o nome que deve ser dado a quem faz algo parecido com jornalismo através das informações que consegue e depois expõe, ou seja, louva-se a atitude e analisa-se o tipo de acção tendo em conta se é ou não de boa qualidade, melhor ou pior do que acção de um jornalista profissional, mas não se lhe pode chamar de “jornalismo” propriamente dito-caso contrário todo e qualquer cidadão que se ache capaz de transmitir notícias e até ache que o faz bem, autoconsiderar-se-ia jornalista.
Assim, comecemos por analisar a opinião de alguém que vê o jornalismo cidadão como algo positivo. Dan Gillmor, um conhecido colunista do San Jose Mercury News e também bloguista, expõe a sua ideia sobre o assunto no livro We, the media. Gillmor acredita na Internet como um meio de comunicação novo e muito rico, que nos pode vir a dar muito mais do que qualquer outro media. Para Dan Gillmor, o jornalismo dos media tradicionais está cheio de vícios, estagnado e já não consegue renascer para a nova sociedade, mais moderna e que precisa de jornalismo sério e bem feito. Além disso, a relação do público com os media antigos é de comunicação unilateral, isto é, os meios de comunicação fazem algo a que Gillmor apelida de “palestras”, injectando informação para uma “massa” passiva que não reage, não critica, não questiona, não procura, não contesta. Com a Internet, essa forma de jornalismo dos media tradicionais não resulta muito, porque a sociedade tem um acesso mais rápido e fácil a mais informação, qualquer pessoa pode mostrar o que pensa, dar opinião, seleccionar informação mais facilmente, aceder a um número indefinido de páginas e sites. Outros meios de comunicação nunca teriam controle sobre isso. Para esta situação, haveria duas atitudes possíveis a tomar de parte deles: tentar lutar contra o “novo rival”, a Internet, ou aliar-se a ela, na perspectiva de procurar usufruir dela para não perder “clientes”, mas ao contrário, angariar mais.
Dan Gillmor vê nos blogs a forma mais pertinente de qualquer pessoa, independentemente de todas as suas características, aceder ao mundo online. Sem estar na posse de nenhum meio antigo de produção, qualquer um pode criar um blog em minutos e utilizá-lo para, como hoje se diz frequentemente, “fazer jornalismo”, expressão que irrita muito os profissionais do ramo, porque inclui numa área que até então só eles detinham, qualquer cidadão capaz de informar a partir do seu blog. Por isso, mesmo quando o simples cidadão informa com qualidade e procura fazer do seu blog uma fonte fidedigna e séria, os jornalistas profissionais tentam a todo o custo desprestigiar esse trabalho, procurando através dessa atitude, valorizar o seu trabalho.
Ao contrário, Gillmor humildemente valoriza esse trabalho do cidadão, mesmo sendo profissional da mídia: “Parto do pressuposto que meus leitores sabem mais do que eu: eles são em maior número – eu sou um só”. Para Gillmor, o jornalismo feito por mais pessoas, mais opiniões, mais cabeças a pensar e a discutir, pode vir a ser muito melhor do que o jornalismo dito profissional. Se pensarmos no 11 de Setembro, no Tsunami, ou nos atentados em Londres, chegámos à conclusão que, enquanto os media tradicionais não actualizavam as informações, já circulavam pela Internet vídeos amadores, fotos, áudios, novas informações sobre os acontecimentos.
É por isso que Dan Gillmor vê com bons olhos e de forma positiva o jornalismo cidadão, achando que os profissionais devem tirar partido do que encontram a esse nível, e a partir daí, não tentar desvalorizar esse trabalho, mas procurar melhorar o seu próprio trabalho, vendo no facto de haver “amadores” com tanta ou mais qualidade do que eles na transmissão de informação, a obrigação de ser melhor. (1)
Outro apoiante do jornalismo cidadão é Jay Rosen, webloguer e autor do livro What are journalists for?, onde fala sobre o aparecimento desta “nova forma de jornalismo”. Rosen vê a blogosfera de uma forma muito positiva, olhando os bloguistas, escritores de notícias, como elementos da mesma familia de um jornalista a sério, quando afirma, no seu blog: “Journalism is a part of that struggle, the simplest act of which is recording the events of the day. So a journal writer has origins in common with a journal-ist. They are members of the same communication family. And this is one reason that weblogs, which the press calls “online journals,” are an event within journalism—the practice of it, as well as our ideas about it.” (2)
Ainda cita James W. Carey considerando que o jornalismo é o nosso diário, o nosso diário colectivo, que retrata a vida comum.
«“Journalism,” James W. Carey tells us, “takes its name from the French word for day. It is our day book, our collective diary, which records our common life.” To record the events of the day is equally the aim of the newsroom and the diary writer” » (2)
Jay Rosen vê os blogs como uma forma de trabalho jornalístico, o que nos dá a entender que não condena o simples cidadão que se acha capaz de fazer trabalho jornalístico, sem formação profissional, através do seu blog, podendo vir a ser algo bastante interessante, tendo em conta a corrente de informação e exposição de questões que daí advém. Isto porque Rosen acha muito positiva e necessária a interacção entre bloguistas : “A weblog can “work” journalistically—it can be sustainable, enjoyable, meaningful, valuable, worth doing, and worth it to other people —if it reaches 50 or 100 souls who like it, use it, and communicate through it. Whereas in journalism the traditional way, such a small response would be seen as a failure, in journalism the weblog way the intensity of a small response can spell success. A weblog is like a column in a newspaper or magazine, sort of, but whereas a column written by twelve people makes little sense and wouldn’t work, a weblog written by twelve people makes perfect sense and does work. In journalism prior to the weblog, the journalist had an editor and the editor represented the reader. In journalism after the weblog, the journalists has (writerly) readers, and the readers represent an editor. In journalism classically understood, information flows from the press to the public. In the weblog world as it is coming to be understood, information flows from the public to the press. Journalism traditionally assumes that democracy is what we have, information is what we seek. Whereas in the weblog world, information is what we have—it’s all around us—and democracy is what we seek.” (2)
« (…)” Community conversation feeds professional journalism. Journalism feeds conversation.” And around, and around. I think there is something to that idea.How well it works is for people in Bluffton to address. I like that Bluffton Today tried to go Lessig on the news industry. It ditched the read only platform and re-built on read/write. Yelvington said at the launch: "Everyone gets a blog. Not just staffers, but everyone in the community. LeMonde (France) and the Mail and Guardian (South Africa) are doing this, too." Giving everyone a blog may be an obvious idea. But it's a different track. "Everyone gets a photo gallery. Everyone can contribute events to a shared public community calendar...." The site was built on Drupal technology. It had free classifieds. It was different. "It isn't tired, boring, traditional journalism. It isn't the straight and narrow of blogs, either. It's important to look at both sides..." I agree with that, Stick. My new adventure, NewAssignment.Net, is a hybrid site for that reason. (Pros and amateurs collaborate on reporting projects.) In January of 2005 I wrote Bloggers vs. Journalists is Over for the same reason.” (3)
Rosen acredita na união entre os dois lados da comunicação social: jornalismo tradicional e o “novo”, se é que lhe podemos chamar assim, tendo em conta a nova vertente tecnológica. A luta entre jornalistas e bloguistas acabou, é o que ele diz, porque devem complementar-se e tirar partido uns dos outros, já que a conversação e o jornalismo profissional estão interligados.
J.D. Lasica é escritor e bloguista, e também expôe as suas ideias sobre o jornalismo cidadão, a mídia e tudo o que os rodeia. “Citizen journalism is not the future, it's the present.”- frase de Michael Tippett, founder of NowPublic.com., citada por Lasica. O que sera que Lasica vê de positivo nesta nova forma de jornalismo, que ele considera já tão presente? O escritor dá o exemplo do 11 de Setembro ou dos atentados em Londres, em que vários cidadãos deram o seu contributo com imagens retiradas com os telemóveis, vídeos, etc. O que mudou desde então? Para Lasica, a diferença hoje é que esse contributo é usado pela mídia, como contributo noticioso, e muito importante para o jornalismo, que não consegue estar em todo a hora, a todo o momento. Claro que se trata, como diz Lasica, não de ser um “profissional”, mas de estar no momento certo à hora certa, para captar acontecimentos inesperados. « Like Yelvington, Tippett believes that citizens don't need to learn traditional journalistic practices as they pick up the mantle of multimedia reporting. “Often, it's just about being an accidental bystander, being in the right place at the right time. The truth reveals itself as you record it as an eyewitness.” ».
A grande diferença é o facto dos cidadãos usarem hoje o que descobrem, o que captam, para fazerem eles próprios a notícia. “We're trying to make people come out of their gates and become players. We want a participative culture to evolve.” – Lasica citando Steve Yelvington, analista do Morris Digital Works. Lasica acha que não se trata tanto de incitar o cidadão a fazer “jornalismo” mas de o incitar a exprimir-se de forma mais active perante o que se passa. «Instead, the Bluffton Today site gave people free blogs and the ability to post their pictures to galleries. While other citizen journalism sites like the Bakersfield Californian's Northwest Voice and the Denver Post's YourHub try to coax citizens into producing "something that looks like journalism," Yelvington says, Morris's approach here has been "more conversational and less bound by assumptions about what the end result should be." As a result, it's less about journalism and more about empowering community members to express themselves. »
Lasica considera esse envolvimento do cidadão no mundo jornalístico de forma participativa algo fascinante e menos formal do que as ditas notícias, como é visível nos blogs criados: «Rather than seeing the traditional formulaic approach of news stories or news releases, readers are seeing writings by people like the local high school principal quickly evolve into "that comfortable, informal, conversational style you see in blogs." »
"The big news organizations always say, we have journalism school grads and Pulitzer Prize winners and people trained in the craft. Fair enough, but you have two people on the story, and we already may have 20 or 50. What happens when we have 2,000 people covering that story? There will come a point where they can't compete,", palavras de Tippett, citado por Lasica.
Mas há algo que o escritor considera ainda mais relevante, ainda mais importante no jornalista cidadão. Ele transmite a notícia, não com a impessoalidade do jornalista professional, que testemunha ou relata, mas não vive, mas com a emoção de quem passou pelas coisas, de quem viu, de quem sentiu, de quem esteve lá. È algo bem diferente, muito mais realista - « Another strength of citizens' news is the removal of the journalist as an impersonal, detached observer. “This is the real reality news,” Tippett says. “People are uploading videos and publishing blog entries, saying, 'Let me tell you about my husband who just died.' It's a very powerful thing to have that emotional depth and first-hand experience, rather than the formulaic, distancing approach of the mainstream media.” (…) Eventually, people in hundreds and thousands of communities will be reporting about themselves. »
Em jeito de conclusão, o escritor afirma seguramente que o mundo das notícias não é mais uma área privada e inacessível. O jornalismo cidadão será, não a excepção, mas a regra, haverá cada vez mais cidadãos “invadindo” o mundo jornalístico, e quem sabe, de forma muito positiva -“The news isn't a private club anymore. Soon, citizen journalism will be not the exception but the rule. Most news will come directly to readers and into newsrooms from people on the scene.” (4)
Ao contrário de todas estas perspectivas, há quem veja o jornalismo cidadão pelo lado negativo, como um “insulto” ao profissionalismo dos jornalistas. Paul Scrivens, analista informático, é um deles. Paul não vê os blogs como um novo tipo de jornalismo, reconhece apenas que se têm tornado uma forma comum de qualquer pessoa facilmente expôr as suas ideias e opiniões. Mas o problema é fazerem-no, muitas vezes, sem procurarem saber se o que dizem está de acordo com a realidade e por isso, os blogs não podem ser tidos como fontes seguras de informação. Portanto, para Paul todo o conteúdo dos blogs não pode ser olhado como verdadeiro jornalismo.(5)
Dan Rosenbaum, bloguista, trabalhou no United Press International, e considera também que os blogs não são sinónimo de jornalismo. Rosenbaum acha que não é por ter fácil acesso à Internet e rapidamente conseguir criar algo que permita expôr às pessoas tudo o que vai na mente de cada um, que toda a gente pode ser jornalista. Não por ter a ferramenta que qualquer pessoa pode exercer a profissão, como não é por um músico ter acesso a todos os instrumentos que se pode dizer músico. Não é por ter um piano em casa que sou pianista. É preciso saber tocar. Para o jornalismo é a mesma coisa. Não basta o acesso ao blog. Não basta saber criá-lo, não basta até ter um gravador em casa, o lápis e o papel, ou o teclado do computador. “Just as the equipment doesn’t make me a musician or a programmer, blogging doesn’t mean you’re a journalist”. Para um blog se tornar em blog jornalístico, teria de ser escrito por um jornalista, ou teria de ser muito bem confeccionado pelo cidadão comum, bem informado, capaz de certificar a verdade, para dar aos seus leitores informação de qualidade.
Mesmo assim, Rosenbaum não desmotiva os cidadãos a criarem blogs, mas alerta-os para a consciência de que não estão a ser jornalistas só por o fazerem. “You want to use weblogs to do journalism? Go for it. Pick a story. Advance it every day, every hour. The infrastructure of blogspace will help you get the word out. If you've picked the right story and you're good enough at advancing it, your work will bubble up. And if you're the first blogger to get cited on A1 of the NYTimes, glory be. Just remember: it's not as easy as it looks.” (6)
No meio de tudo isto, é por vezes difícil estar segura de uma opinião segura. Mas eu penso que, tal como diz Rosenbaum, o facto de hoje em dia todo o cidadão ter acesso às mais variadas formas de expôr através da Internet, tudo o que pensam, as suas vivências, os seus trabalhos, (tal como nós, estudantes de jornalismo, fazemos), seja o que for, mesmo que procurem postar notícias, ou opiniões sobre o que acontece no mundo, isso não lhes dá título de Jornalista. Caso contrário, andaríamos nós a tirar um curso desnecessáriamente e então utilizaríamos o dinheiro das propinas nos meios que nos permitem fazer jornalismo e somente nisso, e poderíamos autoconsiderarnos jornalistas. Não, não penso que seja dessa forma, até porque, sem a formação que temos no curso, eu acho que não é possível ser-se completamente profissional, por muito que que até se escreva bem, ou se tenha uma boa cultura. Jornalismo, só porque não foi dos primeiros cursos a nascer, só porque começaram por ser cidadãos comuns a exercer a profissão, não significa que hoje não esteja modificado, melhorado, aperfeiçoado, exigente, ou que não necessite de pessoas deviadamente competentes. Exactamente como não é um cidadão comum que passa atestados médicos.
Eu penso que o cidadão deve sim usufruir das oportunidades que a tecnologia dá e expôr tudo o que pensa. Se quer tentar aperfeiçoar o seu trabalho, então talvez deva informar-se sobre o trabalho jornalístico e tudo o que ele exige, e é de valorizar sempre um bom trabalho mesmo que não pertença ao jornalista. Mas isso não significa que seja jornalismo no sentido profissional da palavra. Talvez o problema seja mesmo o nome que dão a essa nova forma dos cidadãos demonstrarem o que pensam através da Internet – jornalismo cidadão.
1 - Dan Gillmor
http://www.editpresenca.pt/imprensa_detalhe.asp?id=205
http://www.dangillmor.com/
2 - Jay Rosen http://journalism.nyu.edu/pubzone/weblogs/pressthink/2004/03/08/weblog_demos.html
3 - Jay Rosen
http://interviews.slashdot.org/article.pl?sid=06/10/03/1427254
4 - D.J. Lasica
http://www.ojr.org/ojr/stories/090805lasica/
5 -Paul Scrivens
http://blog.squarespace.com/blog/2005/1/13/blogs-vs-journalism.html
6 - Dan Rosenbaum
http://www.danrosenbaum.com/writing/journoblogs.html
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