Florbela Espanca – “Ser poeta é ser mais alto”

Florbela Espanca foi uma poetisa de enorme emotividade, de sentimentos confusos, mas muito fortes, cuja escrita era nitidamente necessidade de expulsão de sensações a que ela não soube bem dar o nome. Mas poucos são aqueles que hoje conseguem também descrevê-la grandiosidade e multiplicidade de vivências que ela estampou no papel camufladas pela sua eloquência.
Desde pequena fazia versos que, embora com erros ortográficos irrelevantes, ultrapassavam muito a sua suposta inocência infantil. Desde então deu início à constante procura de respostas para as pressões do inconsciente, que a foram conduzindo a uma permanete angústia de nunca conseguir expressar-se ao nível da sua alma e dos impulsos que a dominavam. O grande crítico de Florbela, José Régio, confirma-o, quando diz: “...Nem o Deus que viesse amá-la, sendo um Deus, lograria satisfazer a sua ansiedade...”
Porque para ela as suas manifestações poéticas nunca tocavam a verdadeira maré dos seus sentimentos, a sua independência e isolamento eram notáveis, tendo em conta o seu desinteresse pelas correntes literárias que circulavam pelo país e pelo mundo. Havia quem chamasse a isso egocêntrismo, protagonismo, egoísmo, narcisismo. E, no fundo, também o era. O vulcão de paixões inefáveis que teimava em fazer estremecer Florbela resultava na expressão duma alma de poeta feminina como nenhuma outra o foi, que, através do narcisismo, da sua própria imagem, procurava viver tudo com a maior intensidade possível concentrada em si mesma.
Como refere José Régio, mais uma vez: “...viveu a fundo esses estados quer de depressão, quer de exaltação, quer de concentração em si mesma, quer de dispersão em tudo, que na sua poesia atingem tão vibrante expressão...” Também relativamente ao feminino: “...Também de certo aparecem na nossa poesia autenticas poetisas, antes e depois de Florbela. Nenhuma, porém até hoje, viveu tão a sério um caso tão excepcional, e, ao mesmo tempo, tão significativamente humano...tão expressivamente feminino...”.
Entenda-se que a alma de Florbela procurava sentidos para encontrar-se em algo que lhe desperte a emotividade e sensibilidade por meio do amor, pois ele é como uma energia erótica para Florbela, que a dividia entre o desprendimento e a entrega, reflectidos ambos nos seus poemas. Seria uma pequena ilusão encontrá-la de forma permanente no sexo oposto, mas a sua sede de paixões leva-a a procurar a solução para a sua ansiedade interior nos homens, desiludindo-se sempre nos três casamentos desfeitos em 15 anos apenas. Só este facto já é um espelho da insatisfação e procura de algo semelhante a um “nirvana” que entravam em rebelião dentro dela.
Compreende-se o anúncio insistente da procura, e também as formas sinceras de imaginar tal encontro como formas de amor, ou na imagem do seu feminino, ou nas tentativas de ternura, ou na sua rebeldia. E isso é a poesia de Florbela, anunciação da insatisfação por não encontrar-se. E uma vez que só se compreende um poeta após a interpretação da sua obra, conseguimos fazer da análise da poesia de Florbela Espanca um reflexo do seu perfil tão único, tão genuíno e complexo, que ainda hoje nos suscita curiosidade e admiração.
“Ser poeta é ser mais alto” e lá de cima vê-se muito melhor.
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